[opinião] A revolução de uma palha por Masanobu Fukuoka, leitura urgente
O livro “A Revolução de uma Palha” foi escrito em 1975 por Masanobu Fukuoka, um agricultor e escritor japonês (14,90€, link Amazon, link Fnac)
Um dia, Fukuoka decide deixar o seu trabalho e cuidar da quinta do seu pai. Defendendo a agricultura natural, ele deixa as árvores de fruto resolverem-se sozinhas e elas morrem. Seguem-se 30 anos de experiências em que ele encontra A método de agricultura do não-agir, intervindo o mínimo possível e tendo rendimentos muito próximos da agricultura moderna.
Este livro conta o seu percurso e as suas reflexões. Segundo Fukuoka, é preciso deixar a natureza seguir o seu curso sem usar pesticidas nem fertilizantes químicos, e cultivar plantas de modo a imitar o sistema natural de um ecossistema saudável.
Resumo
Fukuoka sustenta que esta abordagem pode não só produzir colheitas abundantes, mas também contribuir para a regeneração do ambiente e a restauração dos ecossistemas. Lavrar, revirar a terra só encoraja as ervas e o uso de herbicidas. Após cada colheita, devolve-se tudo o que não é necessário (a palha, entre outros)… à terra para a enriquecer. Uma camada de trevos é mantida na superfície da terra, para a enriquecer, mas também para impedir que outras ervas prejudiquem as plantas. Alguns patos ou galinhas bastam para fornecer os fertilizantes necessários e comer insetos. Segundo este método, nem precisaremos de usar fertilizantes químicos.
Quanto aos insetos e doenças, ele afirma que quando o ecossistema é mantido, há certamente plantas atacadas por insetos, mas no global o rendimento
continua melhor do que com inseticidas. Eles atacam as plantas mais fracas, por isso as mais fortes têm mais espaço e sol e dão mais sementes.
O único inconveniente é a ausência de máquinas: a colheita tem de ser feita obrigatoriamente à mão (para não danificar as sementes que estão a germinar).
O livro apresenta, no final, as ideias de Fukuoka sobre a filosofia de vida e a relação do homem com a natureza, muito próxima do taoísmo.
O livro de Fukuoka criou as bases para a permacultura. Ele recomenda não usar lavoura, pesticidas nem fertilizantes químicos, e cultivar várias espécies de plantas juntas para criar um ecossistema diversificado. A permacultura evoluiu desde então e dá maior importância à observação e análise desses ecossistemas para determinar como usá-los de forma sustentável. A permacultura também incentiva o uso de técnicas de jardinagem e agricultura ecológicas, como compostagem e rotação de culturas, e enfatiza a importância de projetar sistemas que sejam ecologicamente saudáveis e economicamente viáveis a longo prazo. Atenção: estes dois modos de agricultura são diferentes da agricultura “bio”, pois ela ainda molda a natureza para se adaptar aos humanos, enquanto a agricultura do não-agir segue completamente a natureza.
Isso me lembra a nossa visita a um xamã na Amazônia que tem um jardim imenso (na verdade, um pedaço de floresta). Quando ele nos mostra plantas cuja metade das folhas está
comida por insetos, perguntamos por que ele não pensou em plantar tal ou tal planta ao lado, pois ela afasta insetos/cobras. Ele me olha com horror e diz: “É a natureza! É o ecossistema! Os insetos têm o direito de comer as minhas folhas”. Isso resume bem a diferença entre a permacultura (plantar árvores compatíveis ao lado para afastar insetos se eles não forem úteis ao ecossistema da planta) e a filosofia de Fukuoka (respeitar a natureza ao máximo).
Essa história de ecossistema foi me ensinada na mesma viagem à Amazônia: o nosso guia encontra uma cobra venenosa no meio do caminho. Ela se camufla na paisagem porque tem a mesma cor da terra. Ele sabe que a cobra é venenosa porque normalmente as cobras fogem quando há barulho, mas esta fica parada ali. Ele a bloqueia com um galho e a pega pelo pescoço para que ela não morda. Quando esperamos que o guia corte a cabeça dela com um facão, ele a solta na natureza, bem longe de nós, porque “é preciso respeitar o ecossistema”. Enquanto para nós teria sido totalmente natural que a cobra fosse morta, quando na verdade ela não nos fez nada.
A maior fome na China teve origem no extermínio dos pardais. Essas aves comiam grãos demais e os chineses sensibilizaram a população para matar o
máximo. Infelizmente, com o desaparecimento dos pardais, os insetos e gafanhotos fazem a lei. Eles comem ainda mais grãos do que os pardais. Quem se acha mais inteligente que a natureza arrisca-se a pagar caro.
Em suma, “A Revolução de uma Palha” é um apelo por uma agricultura sustentável e respeitadora do ambiente, que enfatiza a importância de trabalhar com a natureza em vez de contra ela. Não é um guia prático, embora todos possam encontrar conselhos nele; este livro levanta reflexões, conta a história desse senhor japonês que passou 30 anos da sua vida a testar e encontrar o método sustentável. O mais difícil é adaptar os conselhos que você leu no livro ao clima e às plantas europeias (já que o autor é japonês).
Críticas
Este método foi, no entanto, criticado por várias razões.
Segundo alguns, o método de Fukuoka não consegue produzir comida suficiente para responder às necessidades da população mundial em rápido crescimento, e requer quantidades significativas de mão-de-obra para manter os campos. No livro, ele usa como exemplo 1000m² de campo cultivado com o seu método, com um rendimento suficiente para alimentar 10 pessoas por 70 horas de trabalho por semana. Se partirmos do princípio de que um agricultor francês trabalha 8 horas por dia, então seria preciso 1,25 agricultores para alimentar 10 pessoas. Ora, a percentagem de agricultores em França é de apenas 1,5%. Se seguirmos o método Fukuoka, a % de agricultores teria de aumentar 8 vezes => 12,5% da população a trabalhar para alimentar toda a gente. Sem sequer falar do aumento do preço da comida que isso provocaria. No entanto, se tivermos em conta a riqueza em nutrientes dos vegetais e cereais obtidos com este método, quem sabe, precisaríamos de menos comida. Além disso, o rendimento melhora com o tempo porque a terra é enriquecida graças a todos esses esforços, portanto, continuando por 30, 50 anos, talvez só precisemos de 0,5 agricultor para alimentar 10 pessoas.
Outros argumentam que o método de Fukuoka não pode ser implementado numa escala suficientemente grande para ser economicamente viável, e que os agricultores que seguem esta abordagem podem ter dificuldade em gerar rendimento suficiente para viver.
Por fim, a abordagem de Fukuoka não seria adequada a todos os contextos e outras abordagens, como a permacultura, podem ser mais eficazes em alguns casos.
No entanto, muitas pessoas adotaram com sucesso a abordagem de Fukuoka. Eu pude ver alguns jardins, hortas de particulares, assim como um agricultor vietnamita que vende clementinas, e todos constataram resultados positivos em termos de produção de colheitas, sustentabilidade e viabilidade económica.
Recomendo vivamente a leitura deste livro (14,90€, link Amazon, link Fnac), seja para enriquecer os vossos conhecimentos, ou se tiverem vontade de criar uma horta que respeite a natureza. Escrito em 1975, é “infelizmente” ainda atual: Os problemas (perda de nutrientes, poluição) levantados em 1975 continuam presentes e até pioraram. Várias soluções estão diante dos nossos olhos, mas infelizmente as empresas de fertilizantes, pesticidas e herbicidas não serão da mesma opinião.