[opinião] Alcançar a excelência de Robert Greene: como escapar da mediocridade
Alcançar a excelência (Amazon, Fnac) é um livro que leio com muita regularidade (já falei dele aqui). Sempre que quero dar um gás para trabalhar num projeto ou adquirir uma competência, leio alguns trechos do livro e isso me lembra que preciso ir mais longe, me motivar ao máximo e que 10.000 horas de prática me esperam.
De imediato, Robert Greene apresenta o domínio como o resultado de um longo processo de aprendizagem, prática, criatividade e autoconhecimento. O domínio não é um dom misterioso nem um privilégio reservado aos gênios. Ele resulta de um processo acessível : escolher uma área alinhada às suas inclinações, estudá-la longamente, praticar com disciplina, experimentar e, então, desenvolver uma compreensão intuitiva.
A mente humana torna-se poderosa quando deixa de procurar atalhos e aceita o tempo necessário para a aprendizagem. A intuição superior nasce de um acúmulo profundo de experiências, conexões e observações. Para alcançar a excelência, é preciso manter-se próximo da realidade, conservar a curiosidade, suportar o desconforto e progredir por etapas. O domínio transforma progressivamente o conhecimento consciente em percepção direta, flexível e criativa do real cotidiano.
O livro traz inúmeros relatos sobre os “mestres” como Da Vinci, Einstein, Marcel Proust… é o estilo do autor de se apoiar em fatos históricos, personagens históricos para tirar lições. Ele resume suas vidas de forma sucinta, mas muito voltada para o “domínio”, a “excelência”, para provar que (1) essas pessoas não nasceram com a excelência (2) no entanto, elas têm obsessão e paixão pelo que fazem e são bem-sucedidas.
Há quatro pontos importantes que Robert Greene menciona e que eu gosto muito:
- Encontrar um mentor
- Desenvolver a inteligência relacional
- Visar a interdisciplinaridade ao mesmo tempo que se tem uma especialidade
- Desenvolver uma inteligência mecânica
E então me lembrei de que meus maiores sucessos tinham a sombra de um mentor. Esses “mentores” nunca disseram oficialmente que eram meus mentores, mas me deram conselhos preciosos. Um deles até fez um mini “balanço de competências” para mim, indicando a mudança de carreira que eu deveria seguir. E ele continua certo, pois mesmo 13 anos depois, o caminho que ele me indicou ainda é procurado. Esses “mentores” são visionários, então, ao segui-los, você fica 10-20 anos à frente de todo mundo.
Quanto à inteligência relacional, o autor tem toda a razão. É preciso saber “ler” as pessoas, suas motivações, seus medos à la Marcel Proust. É preciso observar suas ações e não ouvir suas palavras. É preciso saber destacar o seu trabalho e não apenas se contentar em trabalhar. Nos meus antigos empregos, os que eram promovidos eram as pessoas que mais se destacavam, e não os melhores. O Capítulo 4 (ver as pessoas como elas são, a inteligência relacional) é um capítulo que releio muito. A maioria das pessoas não busca a excelência, então é absolutamente necessário saber navegar nesse oceano de mediocridade, sem magoar uns aos outros, sem criar inimigos.
Por fim, quanto à interdisciplinaridade, notei que as pessoas mais competentes que conheci tinham interesses muito variados. Meu “mentor” também fazia fotografia, pintura… e era excelente em cada uma das áreas. Isso se conecta ao 4º ponto: A inteligência mecânica forma-se ao manipular materiais, construir, reparar e observar as reações físicas de um sistema. As mãos dão ao cérebro um retorno imediato que a teoria não fornece, e fazem trabalhar a intuição.
O capítulo 6 (fundir o intuitivo e o racional, o domínio) é provavelmente o meu favorito. Gostaria de tê-lo lido antes, pois cheguei à mesma conclusão, mas depois de anos e anos de treino e trabalho duro. Faz bem ter alguém que coloque em palavras esse processo e o explique de forma simples.
Segundo ele, a intuição superior não é uma sensação mística independente do saber. Ela aparece após uma imersão longa o suficiente para que a mente reconheça instantaneamente configurações complexas. O mestre percebe o que é importante, antecipa as consequências e escolhe sem precisar formular cada etapa do raciocínio. Essa rapidez baseia-se numa imensa biblioteca de experiências organizadas pela prática.
É exatamente isso! Depois de anos, consigo auditar a conta de publicidade do Google Ads em 15 minutos para encontrar as oportunidades de melhoria mais impactantes. Já salvei uma empresa que não sabia por que tinha perdido 80% do faturamento pouco antes do Natal. Naquela época, eu não tinha tempo de pegar esse cliente na minha carteira, ofereci uma auditoria gratuita e, em 15 minutos, encontrei a causa e salvei o faturamento deles. No entanto, meus 15 minutos são o resultado de uma década, incluindo 3 anos em que eu chegava em casa todos os dias às 23h, o resultado de dezenas e dezenas de contas auditadas, analisadas, de relatórios…
O que falta à jovem geração é o tempo. O treino, o foco, a obsessão levam à excelência, e eles têm pouco tempo – e também não reservam tempo para levá-los ao domínio.
Acho que este livro deve ser lido por todos aqueles que estão decepcionados com a mediocridade ambiente, pelos pais que não sabem o que fazer com seus adolescentes que ficam no Tiktok o dia todo, por aqueles que estão presos em seus bullshit jobs. O livro não vai dar a resposta, mas dará o caminho a seguir para alcançar a excelência.
Alcançar a excelência de Robert Greene, disponível na Amazon, e na Fnac
Acho o livro um pouco longo porque há muitas histórias e exemplos de outros inovadores. Mas também há uma versão curta se tiverem interesse (link Amazon, link Fnac).