[Reflexão] #34 : A Paz Interior, única moeda eterna
Mais uma vez, proponho-vos a tradução sucinta de um texto vietnamita que achei muito interessante:
Duas forças podem verdadeiramente transformar o destino de um ser humano: a gratidão e o arrependimento. Pode-se acumular anos de prática espiritual, explorar inúmeros ensinamentos, mas no fundo, tudo se resume a esses dois pilares.
A verdadeira gratidão não se limita aos momentos em que a vida nos sorri. Ela atinge a sua plenitude mais profunda precisamente onde é mais difícil: no coração da adversidade, quando tudo parece ir contra os nossos desejos. É nesses instantes que a alma se forja verdadeiramente, que a consciência se alarga, que o mérito mais duradouro se constitui. Ser grato na prosperidade, todos conseguem. Mas ser grato na provação, é uma outra alquimia. A tradição diz: na prosperidade, cultiva a virtude; na adversidade, cultiva o espírito. O espírito precede todas as coisas. Sem resistência, a força interior não pode nascer. A gratidão na dificuldade é, neste sentido, a oração mais autêntica que existe, não um pedido dirigido ao céu, mas um ato de confiança na ordem invisível das coisas.
Deus não pune. Ele simplesmente responde ao que escolhemos: o caminho do despertar. E o despertar não se faz sem atravessar o sofrimento, sem confrontar a ilusão.
Querer despertar sem aceitar a dor da passagem, é querer a luz sem consentir em atravessar a noite.
Por natureza, procuramos o conforto, a segurança, a validação externa. É uma herança do nosso instinto de sobrevivência, necessária numa época em que a consciência coletiva ainda estava nas suas primeiras camadas. Temos medo do vazio, medo de deixarmos de ser definidos por qualquer coisa. Então agarramo-nos a identidades, a posses, a papéis; sem compreender sempre as leis profundas que regem a existência. Mas cada época carrega o seu próprio nível de consciência. Chega um momento em que esse instinto de sobrevivência já não basta, em que o ser humano é chamado a uma questão mais ampla: Quem sou eu realmente?
Durante muito tempo, as estruturas que organizavam o mundo (religiões, leis, famílias, poderes) operaram a partir o medo. Foram necessárias, pois mantinham uma ordem quando a consciência humana ainda estava a dar os primeiros passos. Nesse espaço, uma elite restrita — aqueles que compreenderam as leis do universo, os símbolos e os ritmos da criação — exerceu uma influência considerável sobre toda a humanidade. Não é o conhecimento em si que é problemático: os símbolos antigos, as sabedorias esotéricas pertencem ao universo inteiro, não são bons nem maus por si mesmos. É o uso que se faz deles (para despertar ou para escravizar) que lhes dá a cor. Essas elites compreenderam as regras do jogo cósmico e usaram-nas para escrever o cenário do mundo. Mas só o podiam fazer com o nosso consentimento tácito, a nossa recusa em assumir a nossa própria energia. Aquilo a que chamamos «escuridão» não é um diabo exterior, é o instinto bruto, as necessidades não integradas, os desejos reprimidos que habitam as camadas mais profundas do nosso ser.
O verdadeiro paradoxo do antigo sistema é este: por um lado, condenava tudo o que pertence aos chakras inferiores — os instintos, os desejos, a sexualidade, a raiva, as necessidades básicas — vestindo-os de vergonha, pecado, impureza. Por outro lado, injetava subtilmente, através dos media, da publicidade e do entretenimento, uma estimulação constante dessas mesmas energias. O resultado: seres mantidos permanentemente nos chakras inferiores, divididos entre a culpa de sentir e a incapacidade de se libertarem. Não porque lhes tivessem ensinado a compreender e a integrar essas energias, a elevá-las para os chakras superiores, mas precisamente porque nunca lhes foi ensinado. Ensinaram-lhes a reprimir, nunca a transformar. Condenaram-nos a andar em círculos neste ciclo de vergonha e desejo, sem nunca lhes dar a chave: conheceres-te a ti mesmo.
Quando o despertar começa, surge uma tentação: a da culpa. Culpar a religião, a sociedade, a família, as elites. E é verdade que ver os mecanismos da matriz é uma forma de despertar. Mas é apenas o primeiro limiar. Pois alguns, ao quererem sair do sistema, entram simplesmente noutra jaula, a da rebelião permanente, da raiva, do medo vestido de lucidez. A verdadeira libertação não está na resistência. Está no voltar-se para dentro. A matriz não está no exterior, está na nossa forma de perceber, de reagir, de nos contarmos. E a única saída possível começa sempre por esse movimento interior.
Quando se deixa de se colocar como vítima e se assume plenamente a responsabilidade pelo que se cria, consciente ou inconscientemente, algo assenta. Os sistemas de medo perdem o controlo, não porque os combatemos, mas porque deixamos de os alimentar. Não nos tornamos inimigos do mundo, tornamo-nos observadores lúcidos dele e, pouco a pouco, senhores da nossa própria realidade.
É aqui que entra o arrependimento, não como autoflagelação, mas como ato de soberania. Reconhecer o que se criou, o que se deixou atravessar por nós sem o ver, e escolher de outro modo. Semear novas intenções no solo do presente. Transformar as antigas marcas kármicas, não pela força, mas pela luz da consciência. O Ho’oponopono encarna esta sabedoria na sua expressão mais simples: Sinto muito. Perdoa-me. Amo-te. Obrigado.
No início do caminho, o universo costuma nos enviar espelhos difíceis: pessoas, situações que refletem nossas zonas de sombra, nossos medos não integrados. Muitos acreditam que isso é um castigo. Na verdade, é um convite. Quanto mais fugimos desses espelhos, mais eles voltam. Quanto mais os acolhemos com honestidade, mais eles se transmutam em sabedoria. Essas almas que nos provam são, à sua maneira, nossos professores mais valiosos; catalisadores disfarçados de obstáculos.
O mérito (essa reserva invisível de graça, sorte e proteção que cada alma carrega) funciona como uma conta bancária espiritual. Cada alma chega a esta vida com um saldo inicial, constituído por suas vidas passadas, seus atos, suas intenções. Esse capital não se vê, mas se sente: nas oportunidades que surgem, nas proteções invisíveis que atuam no momento certo, nas portas que se abrem sem sabermos bem por quê. Como qualquer conta, constitui-se lentamente e gasta-se depressa, e só se recompõe pela profundidade do ser, nunca pela superfície das aparências. Aqueles que têm sucesso cedo demais, antes que sua força interior esteja suficientemente ancorada, usam esse capital sem o recompor. O ego infla, o vazio interior se aprofunda sob as aparências, e quando o saldo se esgota, tudo pode desmoronar, por falta de fundações reais para sustentar o peso do que foi construído. Ao contrário, aqueles cuja bênção permanece discreta por muito tempo (e que muitas vezes nem a percebem) trilham um caminho mais lento, porém mais sólido. Nem na falta excessiva, nem na abundância esmagadora, sua conta se enriquece silenciosamente. Eles são protegidos, carregados no momento certo. O universo só confia a verdadeira abundância àqueles que desenvolveram a capacidade interior de a manter sem serem deformados por ela. Nenhuma ferramenta externa, nenhuma técnica, nenhuma intervenção energética pode substituir um coração estável. O que é atraído sem essa estabilidade, não se consegue manter. E o que se obtém forçando o curso do destino, muitas vezes se paga com os recursos do futuro.
Em última instância, a única riqueza que permanece é a paz interior. Não a paz de quem nunca foi atravessado pela tempestade, mas a de quem aprendeu a permanecer centrado no meio dela. O dinheiro não pode comprá-la. A glória não pode conferi-la. Ela se cultiva, lentamente, pela gratidão na provação, pelo arrependimento sem vergonha, pela responsabilidade assumida com doçura.
Numa época de transformação e purificação como a que atravessamos, é essa paz, e somente ela, que constitui uma moeda de valor eterno.
Aqui está o texto original em vietnamita, se tiver interesse: