Os Meus Favoritos do Momento [dezembro de 2021]: Os Meus Livros Preferidos sobre o Japão
Depois de vários meses a ler livros um pouco demasiado políticos e demasiado focados em negócios, apeteceu-me voltar a encontrar um pouco de leveza, um pouco de viagem através de romances ou autobiografias. Aqui está a minha lista de livros sobre o Japão que gostei muito. Alguns foram lidos há alguns anos e releio alguns excertos de vez em quando.
Memórias de uma Gueixa

Não sei desde quando data a minha paixão por gueixas, já li imensos livros sobre gueixas, as mulheres mais glamorosas e mais artísticas do Japão. Não são cortesãs, mas sim artistas: primam no canto, na dança, em instrumentos musicais, mas também na arte da conversa.
Encontrei dois livros de que gosto mesmo muito, incluindo este, de Arthur Golden. Ele entrevistou inúmeras gueixas e antigas gueixas e o seu livro tornou-se um best-seller, adaptado ao cinema. Infelizmente, tanto o livro como o filme deram que falar, mas não pelas melhores razões.
Aquando do lançamento do livro, Iwasaki, uma antiga gueixa que ele entrevistou, acusa-o de mentiras sobre certos detalhes: a prostituição das gueixas através do mizuâge & os serviços sexuais a prestar aos Dana (uma espécie de patrocinadores).
Quanto ao filme, o público chinês está furioso por ver três atrizes chinesas famosas a interpretar o papel das três gueixas. Sendo bem sabido que os japoneses cometeram crimes atrozes na China e o ódio contra o Japão ainda não foi apagado de um dia para o outro.
Apesar das incoerências e erros históricos e geográficos tanto no livro como no filme, as duas obras transportam-nos literalmente para o Japão do pré-guerra. Mudamos de época, de país, de língua… e somos imediatamente mergulhados neste universo glamoroso mas amargo das gueixas.
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Geisha: a Life

Na sequência do sucesso do romance de Arthur Golden, Iwasaki, antiga gueixa muito conhecida, fica furiosa com as verdades deturpadas pelo autor. Decide ela própria publicar a sua autobiografia para repor a verdade e o seu livro também se torna num best-seller. Nele, conta com uma poesia e uma nostalgia tocantes: a sua infância, o seu paraíso perdido, como se tornou na gueixa mais famosa de Gion. Há alguns detalhes interessantes sobre o Japão, como o facto de se depilar o rosto desde os seus primeiros anos, todos os meses. Fala também da aprendizagem das geikos (gueixas de Quioto), do festival Miyako Odori todas as primaveras em Quioto (é graças ao seu livro que o descobri e a ele assisti com o JB.).
Sendo gueixa de base, a sua escrita não é tão boa como a de um escritor, mas o conteúdo é muito interessante. Tentou, em vão, modernizar o universo das gueixas, mas esbarrou no peso das tradições.
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O Apelo ao Estudo
O Apelo ao Estudo, publicado entre 1872 e 1876, é a obra mais importante da era Meiji (1868-1912). O seu autor, Fukuzawa Yukichi (1835-1901), empreende um duplo exercício: pensar a forma como o Japão pode e deve «aceder à civilização» e convencer os seus compatriotas a segui-lo nesse caminho, o único que, segundo ele, pode evitar a colonização do seu país pelas potências estrangeiras.
Best-seller absoluto da época, este livro, que desempenhou um papel capital na construção do Japão contemporâneo, oferece inúmeras chaves para compreender o que foi verdadeiramente a Restauração Meiji para os japoneses.
Durante a era Edo, o Japão fechou-se completamente. No entanto, quando constataram a presença dos ocidentais por toda a Ásia, e perante a ameaça de também serem reduzidos a colónia, os japoneses compreenderam que precisavam de se modernizar, é uma questão de sobrevivência. Foram enviadas missões para dar a volta ao mundo durante 2 anos para observar o mundo ocidental, aprender com os seus sucessos e com os seus erros. Fukuzawa Yukichi fazia parte dessas missões. Trouxe imensos livros estrangeiros, mas sobretudo escreveu muitos livros – incluindo um que tem um enorme impacto no Japão, ainda nos dias de hoje: o Apelo ao Estudo. O seu livro continua a fazer parte dos best-sellers no Japão, mais de um século depois.
Este livro, contudo essencial para compreender a obstinação dos japoneses e a sua determinação pela perfeição e pelo seu dever para com a sua pátria, só foi traduzido para francês em 2018. No entanto, não só a tradução é cuidada, como o prefácio e o posfácio são muito completos e permitem compreender o contexto e o conteúdo geral da obra.
Se a primeira parte é a mais famosa (trata-se, na verdade, de um discurso proferido na abertura de uma escola), as outras partes complementam-na e acrescentam precisões e críticas. O conjunto da obra foi escrito e publicado ao longo de vários anos.
O conteúdo é surpreendentemente moderno. E após a leitura, ficamos não só com vontade de aprender, continuar a aprender, mas também de servir o país como deve ser. Acho que a primeira parte já pode ser dada a ler aos adolescentes. Porque é fácil de compreender (o discurso foi escrito para ser compreendido por todos), há frases ainda verdadeiras nos nossos dias, como:
O Céu, diz-se, não cria nenhum homem superior aos outros homens nem nenhum homem inferior aos outros homens. (…) A diferença entre os sábios e os tolos vem, portanto, simplesmente do facto de uns terem estudado e os outros não. (…)
A fronteira entre a liberdade e o egoísmo é ultrapassada assim que causamos dano a outrem.
O responsável pela tirania não é o governo, mas o próprio povo que causa a sua própria desgraça. Já que um povo estúpido chama um poder tirânico, é lógico que bons cidadãos sejam governados por um governo esclarecido. E é porque, atualmente, no nosso país, temos um povo assim, que temos também um governo assim. Que o povo se torne menos virtuoso, que mergulhe na ignorância ou no analfabetismo, e as leis do país tornar-se-ão mais repressivas.
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Os livros de Amélie Nothomb
Li tantas coisas negativas sobre Amélie Nothomb, e ver a sua foto na capa do seu romance anual não ajuda: por que é tão importante ter a sua cara em todos os romances? Mas nunca se deve julgar o livro pela capa (never judge a book by its cover), o hábito não faz o monge, então comecei por ler o seu melhor livro sobre o Japão Ni d’ève ni d’Adam e fiquei agradavelmente surpreendida.
Não é fácil encontrar ocidentais, que dominam perfeitamente o japonês, que viveram com japoneses, que contam com tanto humor e detalhe as diferenças culturais, as dificuldades da língua etc. e Amélie Nothomb, em poucas frases, consegue levar-nos com ela nas suas aventuras no Japão dos anos 90, com brilhantismo.
Os seus livros são sempre demasiado curtos e leem-se em poucas horas. Sublinhuei muitas coisas porque aprendemos coisas que não existem em mais lado nenhum: por que é que ela pensava que o seu noivo fazia parte da yakuza (máfia japonesa) quando ele não tinha tatuagens? como se passa a subida e a descida do monte Fuji? por que é que é preciso pagar um conversacionista durante os jantares? etc. há passagens em que morremos de rir.
Depois, o seu romance Stupeur de tremblements aborda um tema mais grave: o racismo e o sexismo nas empresas japonesas. Como a cultura japonesa retira o pouco de individualismo de cada funcionário para visar uma eficácia global. A sua experiência numa empresa japonesa é tão incrível que muita gente a acusou de ter mentido, de ter exagerado, de ser mais romancista do que autobiografa… Mas no meio deste inferno na terra, ela ainda encontra autodepreciação, humor… tanto que, apesar do tema grave do livro, também rimos imenso.
Estes são os dois romances que vos recomendo de olhos fechados.
O terceiro: La Nostalgie Heureuse é como um Behind the Scenes de uma reportagem que ela fez com a TV5, para voltar ao Japão depois de 16 anos. Este fez-me derramar demasiadas lágrimas. Não o aconselho pelo seu valor literário, mas pela vossa curiosidade. É preciso saber que os livros de Amélie Nothomb são traduzidos para japonês, portanto o seu regresso permite ver as pessoas de quem ela fala nos seus livros, mas também ver como reagem durante os reencontros, já que também leram coisas escritas sobre eles. Neste livro, há uma passagem em que a sua tradutora confirma que Amélie não exagerou nada no que se passava dentro das empresas japonesas, onde o seu antigo noivo japonês falava do terramoto e da catástrofe em Fukushima. Fora isso, aprendemos menos sobre o Japão do que sobre a própria Amélie.
Aconselho-vos a ler este livro enquanto veem a reportagem – para terem mais informações.
Nesta reportagem, ela também explica porque é que a sua cara está em todo o lado: depois do sucesso do seu primeiro romance Hygiène d’un Assassin, as pessoas não podiam acreditar que uma jovem de 23 anos pudesse escrever um livro assim, e que era forçosamente um homem por detrás – daí a sua necessidade de pôr a sua foto na capa. A pobre Amélie também contou a violação coletiva que sofreu aos 12 anos, confessou sem vergonha que ouve constantemente uma voz má dentro dela desde esse acontecimento, e como a faz calar graças à escrita. É uma personagem cheia de cores, mas também muito tocante, e tenho mesmo muita dificuldade em compreender as críticas em relação a ela. As pessoas julgam-na principalmente pelo seu vocabulário variado (atribuído ao snobismo), mas sobretudo pelo seu apelido – é de acreditar que no mundo francófono não se pode ser rico e talentoso. É demasiado para uma só pessoa.
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- Livro: la Nostalgie Heureuse (link Amazon, link Fnac) 6,4€
Espero sinceramente que esta lista vos tenha dado ideias de leitura. Não hesitem em ler os nossos artigos (diários de viagem & guias) sobre o Japão.


