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As Minhas Leituras de Setembro de 2024

Sempre que volto a França ou ao Vietname, tenho uma longa lista de livros em papel para ler. Não os posso levar comigo em viagem, por isso leio-os quando tenho acesso. Ou não estão disponíveis em ebook, ou foram comprados em versão de bibliófilo. E prefiro não ler em ebook quando a versão de bibliófilo existe e me pertence.

Animal Farm da Suntup Editions

O primeiro que li rapidamente foi “Animal Farm”. Nunca li este livro, mas li 2 versões em BD e conheço o enredo.

Só tive tempo de ler a introdução escrita pelo filho de Orwell. Ele explica que o sucesso de Animal Farm permitiu que a família vivesse tranquilamente numa quinta sem se preocupar com dinheiro. E que, como filho adotivo de Orwell, não tinha o dever/a expectativa de se tornar escritor. Imagino que a esperança também pesasse muito sobre Brian Herbert, filho de Frank Herbert, e por isso, apesar da falta de talento literário, ele se forçou a continuar a saga do pai?

O livro é uma versão de bibliófilo da Suntup Editions, que mandei vir dos Estados Unidos a custo de dois rins e três braços. Tinha a intenção de refazer a encadernação, mas quando toquei no livro a sério, achei a encadernação super sólida e merece ser mantida como está. A impressão em letterpress dá um pouco de relevo aos caracteres, mas não de forma incomodativa (por exemplo, não se veem na página seguinte os vestígios da página anterior). As ilustrações são magníficas, gosto muito, muito! Prefiro-as às diferentes versões em BD que me parecem demasiado simplistas.

É o meu único livro da Suntup e quando o hype acalmar, vejo-me a comprar outros livros deste editor. O meu sonho é ter um livro da Lyra’s Books também (update: já o tenho!), mas vou ter de ter paciência, porque os títulos que escolhem não me agradam muito.

The history of the Limited Editions Club

Li 1/3 deste livro sobre “The Limited Editions Club”, uma editora para bibliófilos criada por George Macy. Há muito pouca informação sobre ele e finalmente um especialista investiga a sua vida, a sua obra. É super interessante. Tenho 3 livros da The Limited Editions Club e interessa-me ver como foram feitos. O livro é bonito, impresso em papel sem ácido. Quase rasguei a encadernação para me motivar a fazer outra, quando me lembrei do preço que paguei por este livro (preço do livro + envio dos Estados Unidos + taxas). Portanto, conforme o mood do momento, decidirei vendê-lo (para financiar outros livros para bibliófilos) ou refazer a encadernação e deixar de o poder vender. O formato é muito grande, não é um livro que possa pôr na minha mala.

The Innocents Abroad da The Limited Editions Club

Entre os 3 livros da Limited Editions Club, pude ler 1/3 de The Innocents Abroad de Mark Twain. Este custa-me menos porque vem de uma livraria anglófona sediada em Paris (ufa). É uma versão de bibliófilo. Está ricamente ilustrado e é demasiado divertido! Seguimos Mark Twain, que tinha um lugar num barco de cruzeiro, a visitar o Mediterrâneo e a Terra Santa durante vários meses. É o tipo de diário de viagem que sonho ser autora. O programa do barco faz sonhar, pois visita Paris durante a exposição universal! e visita, entre outros, o Egito, Jerusalém, a Crimeia… uma pequena viagem bem simpática que se passa no final do século XIX, com pessoas de outra época, outra maneira de viajar, sem as preocupações das guerras mundiais nem dos efeitos nefastos da evolução industrial. E é extremamente divertido. Um humor fino, e a sua maneira de contar é tão cativante, não esperamos de todo pelos desfechos hilariantes. Ele goza muito com outros turistas americanos.

Vou ter de acabar o livro em ebook porque quero saber como termina. No início, queria vender o livro depois da leitura, mas mudei de ideias, este livro é demasiado bom e acho que vou folheá-lo de vez em quando, só pelas ilustrações impressas à antiga e com cores adicionadas à mão com stencils. Mais informações aqui.

Peço desculpa aos que não falam inglês. Têm de se contentar com esta edição simples e em segunda mão (link Amazon). Aqui está a apresentação da edição francesa:

O que fazer agora? Depois de viver mil aventuras como piloto no Mississippi (A Vida no Mississippi, Payot), fugir da Guerra de Secessão, atravessar a Pradaria, provar a dura vida dos garimpeiros (Á Dureza, Payot), eis o jovem Samuel Clemens, mais conhecido como Mark Twain, novamente sem um tostão, em Nova York. Uma proposta do Alta California vem salvá-lo: seguir, para seus leitores, a primeira viagem turística organizada desde a América. E é assim que Mark Twain, que quando criança sonhava em explorar o Amazonas, embarca em 8 de junho de 1867 no Quaker City, rumo à Europa. No programa: Açores, Gibraltar, França, Itália, Grécia, Constantinopla, Crimeia, Esmirna, Terra Santa e Egito… Mark Twain, o homem do Oeste, diante da velha Europa! O choque vai causar faíscas. Pois, com o olhar feroz e a língua afiada, ele não está disposto a aceitar lorotas e se mantém firme em seus valores de homem da fronteira. O que nos rende um espetáculo de fogos de artifício bastante surpreendente de piadas enormes, descrições mordazes, anedotas divertidas e reflexões mais sérias do que se imagina à primeira vista – com, de bônus, alguns burros, camelos e uma corrida desenfreada pela Europa, em busca de um pedaço de sabonete fantasmagórico… O sucesso de Os Inocentes no Estrangeiro foi imenso desde sua publicação em 1869 – sem dúvida porque marcava, simbolicamente, uma inversão do olhar entre o Velho e o Novo Mundo. Nesse sentido, Mark Twain é mesmo, como escreveu Hemingway, o pai do romance americano, o primeiro a fundá-lo, sem mais referências à Europa, nas tradições e valores da América.

Francamente, há muitos livros super engraçados assim que são esquecidos com o tempo. Lembro-me de: An Innkeeper’s Diary de John Fothergill reeditado pela The Folio Society, para morrer de rir também, que fala sobre a gestão de um hotel na época das primeiras viagens de particulares com seus carros. Vou comprá-lo (atualização, eu o comprei!!! – assim como as duas continuações), quando eu tiver um verdadeiro “lar”.

Proust

Depois, devorei os livros relacionados a Proust.

  • Proust vidente (link amazon): o estilo é penoso, mas a gente entende mais ou menos onde o autor quer chegar. Em suma, Proust é um médium. Isso explica todas as suas reflexões sobre a vida e a morte, a alma de uma pessoa que permanece nos objetos, as lembranças que surgem da pequena madeleine… O autor defende sua tese de que todas essas reflexões sobre o psiquismo são normais e estão na moda (início do século XX). Nós oprimimos tanto esse tipo de fenômeno desde então que não conseguimos mais compreendê-los, nem detectá-los. Ao ler Em busca do tempo perdido como especialista em fenômenos “paranormais”, reconhecemos imediatamente os dons de Proust, mas também de M. de Charlus, e de Albertine!!! Finalmente entendo por que Albertine é tão especial, porque ela me entediava profundamente!
  • Ilustrar Proust – história de um desafio : um livrinho não muito desenvolvido onde o autor critica todas as ilustrações de Proust que foram feitas desde o início. Há 2-3 informações interessantes, mas assim que se lê, logo se esquece
  • Ilustrar Proust – arte do repintar (link amazon): este livro é muito mais interessante, mas só consegui ler 1/3. Começa-se com a análise das ilustrações de Os Prazeres e os Dias, o primeiro livro de Marcel Proust, ilustrado por Madeleine Lemaire (Mme Verdurin, mais conhecida e respeitada que Proust na época). Acompanham-se as ilustrações na ordem do romance, não na ordem cronológica. Há muitas fotos. Com este livro, francamente, nem tenho mais vontade de colecionar os livros ilustrados deEm busca do tempo perdido pois as mais belas ilustrações já estão lá!

Stoned

É um e-book que comprei (link amazon para o livro em papel) mas é tão envolvente que o li mesmo tendo uma tonelada de livros em papel para terminar. A autora é joalheira e explica por que o luxo nos atrai tanto, por que nos deixamos enganar pelo luxo. Seguem-se anedotas históricas sobre pedras preciosas. Eu amooo! As referências bibliográficas estão ausentes, é uma pena. Mas há muitas informações para se mostrar erudito em jantares, por exemplo, o número de quilates de diamantes estimado por habitante; o marketing da indústria de diamantes; por que a esmeralda é a mais rara e a mais cara do bário? por que desejamos um objeto e não outro? as cores do safira…

A leitura deste livro me abriu os olhos para (1) por que quero tal objeto (2) como resistir diante de um objeto (3) por que aprender artesanato me permite controlar meus desejos de compra. Percebo que, como muita gente, quero tal ou tal objeto não pela sua beleza, mas pelo hype que se cria em torno desse objeto, pois todos o querem e poucos podem comprá-lo, e eu me deixo completamente enganar pelo marketing. Conhecer o mecanismo e, principalmente, agora como fazer eu mesma esses objetos, me permite remover o marketing e ver o objeto pelo que ele realmente vale, e na maioria das vezes, não vale grande coisa. Recomendo vivamente àqueles que acham que fazem um pouco de compras demais 😀

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