[Reflexão] #38: E se o nosso maior perigo fosse ignorar os sinais de alerta?
Há mais de dois mil anos, nas páginas antigas do Yi King, foi escrita uma verdade universal. Três frases para compreender a história humana: “Onde um servo mata o seu senhor, onde um filho mata o seu pai, as causas não se encontram entre a manhã e a noite de um dia. Se as coisas chegaram a esse ponto, é porque se prepararam muito gradualmente. Isso veio de não se ter travado a tempo o que se devia ter travado.” (página 439 da edição amarela link Amazon, link Fnac).
Nada de grande nasce subitamente. As catástrofes, as traições, as crises económicas, a queda dos impérios, tudo começa com negligências microscópicas que escolhemos não ver.
A Lei da Acumulação Gradual
O Yi King ilustra esta ideia com uma imagem de uma simplicidade: “Se se pisa o gelo, o gelo sólido não está longe”. Quando os seus passos tocam essa fina camada de gelo sob os seus pés, isso não é o perigo em si. É o sinal. O gelo vai engrossar. O que se faz normalmente? Não se diz “não é grave”. Não, age-se!!! Usa-se calçado adequado. Coloca-se sal à frente de casa para evitar que o gelo se forme. Preparamo-nos para o frio intenso. Caso contrário, um dia podemos escorregar e partir uma perna. E nesse momento, será tarde demais. O gelo era o último aviso, e ignorámo-lo.
Na nossa vida quotidiana, este princípio manifesta-se em todo o lado, à nossa volta: Uma relação tóxica nunca começa com violência física. Começa com um comentário desdenhoso que negamos, uma pequena mentira que aceitamos, um silêncio cúmplice que toleramos. Pisamos gelo mas continuamos como se nada fosse. Uma doença crónica não surge de repente. É o resultado de anos de má alimentação, falta de exercício, stress não gerido, falta de sono. Um vício não começa com uma overdose. Começa com “só desta vez”, com “só para experimentar”, com “posso parar quando quiser”. Durante a pandemia, os governos injetaram milhares de milhões em todo o mundo. É mais que evidente que uma crise de inflação se seguiria. Era gelo, e todos sabíamos que o gelo grosso chegaria.
O verdadeiro problema não é a ausência de sinal de alarme. O problema é a nossa incapacidade de o reconhecer, ou pior, a nossa incapacidade de reagir quando o vemos. Preferimos enterrar a cabeça na areia. Estamos biologicamente programados para ignorar os perigos que não ameaçam imediatamente a nossa sobrevivência. O nosso cérebro prefere o conforto da ignorância ao desconforto da confrontação. Preferimos a suavidade da negação à dor da ação.
A inteligência artificial: o gelo da nossa época
Hoje, enfrentamos um novo perigo, talvez o maior da história humana. A inteligência artificial não é simplesmente uma ferramenta como outra qualquer. É uma tecnologia que transforma radicalmente a forma como vivemos, como trabalhamos, como pensamos, como nos relacionamos entre nós. Os sinais estão em todo o lado. Milhões de pessoas vão ser substituídas pela IA nas próximas décadas. A mudança já está aqui.
E como sempre, ignoramos os sinais de alarme. O mais trágico não é a IA em si. O mais trágico é a atitude das pessoas que vão ser substituídas e que não fazem absolutamente nada. Essas pessoas são exatamente como alguém que caminha sobre o gelo fino recusando-se a reconhecer o perigo. Sabem que algo está a mudar, veem os sinais, mas preferem a ignorância à ação. Dizem a si mesmos “sou demasiado velho para aprender”, “a IA nunca substituirá os humanos”, “a Europa vai criar normas”. Estão enganados. A mudança já está aqui. Não se trata de saber se a IA vai substituir empregos, mas de saber quem será substituído e quem se adaptará. Talvez a estratégia fosse ir no sentido oposto da IA, dedicar-se à marroquinaria ou cultivar os seus tomates por exemplo, mas é preciso haver alguma ação.
Não ignorar os sinais
O princípio do Yi King é claro: aja quando o gelo está fino. Desenvolva competências humanas que a IA não consegue reproduzir: criatividade, empatia, amor, pensamento crítico, ética. Não seja passivo. A história não perdoa a ignorância.
Forme-se constantemente. Para lidar com a IA, primeiro é preciso compreendê-la. É preciso saber o que ela é capaz de fazer, e sobretudo o que é incapaz de fazer. Como dizia Sun Tzu em A Arte da Guerra : “Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas”. O mundo muda depressa, e aqueles que não se adaptam cairão como moscas.
As grandes catástrofes nunca são súbitas. São o resultado de anos de negligência, de ignorância, de recusa em ver o que está diante dos nossos olhos. O perigo não é a IA em si. O perigo é a inação. O perigo é a ignorância. O perigo é a recusa em notar os sinais de alerta, em tomar as medidas necessárias antes que seja tarde demais. O gelo grosso acabará por chegar. A questão é saber se estará pronto quando ele chegar, ou se terá escolhido fechar os olhos até ao último momento.