Os Meus Favoritos do Momento – [Novembro 2024]: Livros e Biografias de Paulo Coelho
Vocês sabem que eu coleciono livros em edição limitada há pouco tempo (2 anos) e tenho uma coleção modesta de livros impressos à moda antiga (letterpress) de diferentes editoras para bibliófilos (Suntup Press, The Limited Editions Club, Imprimerie Nationale). Como todos os outros colecionadores, estou sempre de olho nos próximos lançamentos de uma dezena de editoras (fine presses) e desta vez o meu coração bateu mais forte quando vi que a Lyra’s Books ia lançar a primeira versão de bibliófilo de “O Alquimista”, de Paulo Coelho. É um livro que gostei muito, a ponto de escrever uma review detalhada , mas não estava muito convencida em pagar 175 libras + 55 libras de envio, ou seja, 277 euros, pela versão standard (as versões numbered e lettered estão na casa dos 800 euros, e depois 2700 euros). O meu orçamento anual para livros bonitos é de cerca de 600 euros, e este livro sozinho representa quase metade.
Vocês podem ver aqui as diferentes versões: as duas primeiras são versões Standard (podemos escolher entre duas cores), a terceira é a versão Numbered, e a última é a versão Lettered.


Aqui estão algumas ilustrações partilhadas pela editora. Algumas são a cores, outras a preto e branco.







A editora também partilha o processo de criação, para vermos bem as mudanças entre a ideia inicial e a criação final:





Entre o anúncio do lançamento do livro e a colocação à venda, passou quase um mês, durante o qual o meu coração andou aos saltos entre “sim, compro” e “não, não compro”. Será uma compra indispensável? Não. É um livro que lerei regularmente? Sim, porque já o faço.
Biografias de Paulo Coelho
Ando a hesitar e a mudar de ideias todas as manhãs quando vejo na minha dentista francófona em Istambul uma estante cheia de livros de Paulo Coelho. Embora tenha gostado de O Alquimista, nunca pensei em ler outros livros dele porque não me interessam. Ao ler O Alquimista, vejo claramente que não é um grande escritor, o estilo é simplista. Mas na estante da minha dentista há um título que me chama a atenção “Conversas com Paulo Coelho” (link Amazon, link Fnac). Tenho de esperar pelo JB na dentista de qualquer forma, tenho 1h30 pela frente, li o livro todo, e gostei muito!
Paulo Coelho tem uma vida muito menos simples do que o seu estilo de escrita. Neste livro escrito por Juan Arias Martínez, um escritor espanhol, Juan Arias Martínez resume longas conversas que teve com o Paulo na sua casa no Rio de Janeiro, em frente à praia de Copacabana. Paulo Coelho revela alguns segredos, incluindo a sua (antiga) associação com uma seita (pior que satânica), o seu sequestro por um grupo paramilitar e as torturas que sofreu, bem como as suas três estadias num hospital psiquiátrico, por decisão dos pais…. No entanto, o conteúdo vem da boca de Paulo Coelho, por isso, mesmo que revele coisas embaraçosas, o relato é totalmente dele.
Agora que comecei a descobrir o autor, mais vale aprofundar. Então li a biografia oficial de Paulo Coelho, escrita pelo melhor biógrafo brasileiro, Fernando Morais: O Mago: A extraordinária história do escritor Paulo Coelho (link Amazon, link Fnac).
Durante 4 anos, Morais não largou Coelho e entrevistou uma centena de pessoas que conheceram Coelho. Ao ler o testamento de Coelho, Morais reparou na menção de uma arca para destruir após a morte dele. Perguntou-lhe sobre isso e ele lançou-lhe um desafio: se o Morais encontrar o homem que torturou o Paulo Coelho, terá acesso à arca. Morais consegue, envia uma prova ao Coelho e descobre que na arca estão 40 anos de diários e gravações áudio de Paulo Coelho. Morais deita fora as 200 páginas que já tinha escrito, paga a um especialista para organizar toda a informação de forma clara, e escreve a biografia.
Neste livro, descobrimos realidades ainda mais chocantes sobre Paulo Coelho. Já não é uma “vítima”, um “arrependido”, é um homem profundamente egoísta, certamente vítima da vida num dado momento, mas muito egoísta na base. Não vai parar diante de nada para alcançar o sucesso e o dinheiro. Faz “hit & run”, aproveita-se das pessoas e da sua vaidade, nunca hesita em colocar os seus interesses acima de todos. Fazia parte de uma sociedade secreta e inseria palavras satânicas nas canções de Raul Seixas e fazia rituais seitas no seu curso de teatro. Agora faz parte de outra sociedade secreta (RAM) que tem rituais de iniciação estranhos mas gentis: O seu mestre chama-se Jean e faz-lhe fazer viagens por aqui e por ali… O Alquimista faz sentido, pois realça o conceito da lenda pessoal, e como lá chegamos. “Quando queremos uma coisa, todo o Universo conspira para nos permitir realizar o nosso sonho”, é esse o seu discurso, porque uma pessoa profundamente egoísta pensa efetivamente que o universo só existe para ela e faz tudo para a ajudar. Na realidade, foram primeiro os poetas que financiaram a sua “vanity press”, e depois somos NÓS, os leitores, que estamos a ajudá-lo a realizar a sua lenda pessoal, ou seja, ter muito dinheiro e poder.
Depois do lançamento desse livro, que causou um efeito “boom” no Brasil (país onde os críticos literários odeiam o Coelho), Morais não ouve mais falar de Coelho. Este não responde mais aos seus pedidos. Morais tem que ir para a França, onde Coelho vive metade do ano, para perguntar por que não tem resposta. Coelho não responde claramente, mas mais tarde dará uma entrevista a um jornal espanhol dizendo que tinha medo do próprio passado, mas que era melhor tudo aquilo sair agora. Entre esses segredos bem guardados, há um velho livro sobre vampiros cuja escrita foi passada para um certo Toninho Buda. Coelho não escreveu nenhuma palavra, mas era visto como autor principal do livro. Toninho achava que seu nome apareceria no livro, mas recebeu apenas o equivalente a uma refeição e nenhuma menção. Mais tarde, Coelho, referindo-se a Toninho como “escravo” em seu diário, trouxe-o para a Europa pagando um salário de miséria. Graças a essa biografia, Toninho viu o karma lhe devolver o que sempre mereceu: seu livro sobre vampiros, e ainda lançou um livro sobre Raul Seixas.
(Espero que vocês gostem desses trechos de fofoca, porque fui fuçar a internet em português e espanhol para resumir tudo pra vocês. De nada).
De onde vem o sucesso do Coelho?
Agora, realmente me incomoda comprar um livro do Coelho e contribuir para a riqueza dele. Mas pensando bem, quando o Coelho pisava nos outros para se elevar, isso acabava mal, então o karma podia ter mostrado a ele que esse não era o caminho e ele foi punido. Sua ganância e sede de poder fazem com que, apesar do sucesso, ele nunca seja um homem feliz como você e eu. O verdadeiro sucesso dele (a partir do Diário de um Mago) foi apenas ligado à perseverança dele e às vezes em que ele não pisava em ninguém.
Para o primeiro livro “O Diário de um Mago“, foi ele quem fez a divulgação do livro. Hoje em dia, os autores fazem isso, mas naquela época era a editora que tinha que fazer e os autores não tinham paciência para participar de entrevistas. Coelho, ao contrário, participava ativamente, autografava muitos livros, ia falar com os livreiros para saber o número de vendas. Distribuiu panfletos em frente aos teatros, pagou do próprio bolso um assessor de imprensa cujo trabalho é fazer o livro ser mencionado em programas de rádio, TV, conseguir entrevistas etc. Ele era bem pago, mas tinha principalmente uma comissão baseada nas vendas do livro. Coelho soube fazer comunicação literária antes do tempo. Onde ele foi esperto foi em dizer, durante uma entrevista, que era mágico e sabia chamar a chuva. Ele também se vestia de templário/mágico. Outro jornal, intrigado, quis testar seus poderes e, de fato, durante a entrevista, ele conseguiu trazer o vento. As vendas então explodiram. O livro virou best-seller sozinho, porque os críticos literários não falavam nada dele, todo mundo achava que era um fenômeno one shot.
Lição 1: Então, a lição que eu tiro aqui é que é fundamental dar comissões por resultados para motivar as pessoas. Eu compro couro de dois fornecedores. De um, compro pouco, só quando preciso, porque eles não fazem muita comunicação, então nada me atrai. Do outro, compro mesmo quando não preciso, porque eles não param de comunicar sobre as chegadas. Por que a funcionária do segundo fornecedor se comunica mais do que a do primeiro? Porque ela ganha uma porcentagem do faturamento!!! Então, claro, ela se esforça 10 vezes mais do que o do primeiro fornecedor.
Além disso, o contrato assinado com o primeiro editor do “Diário de um Mago” era muito interessante, pois levava em conta a inflação, negociações a cada reimpressão, o que dava a Coelho muita flexibilidade. Não sei se hoje em dia é possível fazer isso com as editoras, mas acho muito inteligente. É preciso pensar sempre com vários passos à frente. Paulo Coelho nasceu numa família ultra rica e o que notei nos ultra ricos é que eles eram econômicos, gerenciavam bem o dinheiro; enquanto os pobres eram generosos demais e dissipavam suas economias mínimas à menor oportunidade. É claro que precisamos encontrar um meio-termo, mas isso explica por que os ricos estão cada vez mais ricos, e os pobres… cada vez mais pobres.
Lição 2 : Sempre ter vários passos de vantagem
Mesmo agora, Coelho acompanha de perto as vendas de seus livros, desafia seus colaboradores, pede às editoras que mudem o preço dos livros, troca de editoras se elas não distribuem bem seus livros. Como eu sempre digo aos aprendizes de empreendedores, ser empreendedor é a profissão mais difícil da empresa, pois é preciso saber um pouco de todos os ofícios, não o suficiente para ser especialista, mas o suficiente para criar uma estratégia vencedora e contratar as pessoas certas. Quando meus amigos empreendedores vêm me ver e dizem “Anh, você pode cuidar do marketing da minha empresa? Eu não entendo nada disso”, eu digo que isso é muito grave; um empreendedor precisa aprender sozinho. Quando Elon Musk chega em algum lugar, ele passa várias horas com cada especialista, faz perguntas específicas para aprender o ofício deles em modo expresso.
Lição 3 : Ser empreendedor é conhecer todos os ofícios da empresa
Quando o primeiro editor recusou publicar “O Alquimista”, Coelho conseguiu procurar outro editor facilmente e também passar “O Diário de um Mago” para o segundo editor. Como os críticos literários perderam o lançamento do best-seller “O Diário de um Mago”, desta vez o lançamento do Alquimista, logo antes das festas de Natal, causou um efeito “boom”. Foi O presente de Natal daquele ano, e por muitos anos seguintes.
Foi o I Ching que aconselhou Paulo Coelho. O I Ching é um livro milenar chinês capaz de dar respostas. É também um livro filosófico que ensina qualquer pessoa a navegar pela vida. É o meu livro preferido do mundo (falei dele aqui) e quando soube que o Paulo Coelho o conhecia e fazia perguntas ao I Ching, o seu sucesso deixou de me parecer misterioso. Quem realmente compreende o I Ching (link Amazon) vai ter sucesso na vida, saberá adaptar-se às mudanças da sociedade, como o Coelho com os livros pirateados ou a chegada da Internet. Se há um único livro para ler, é este.
Uma das principais mensagens do I Ching é que há um momento ideal para tudo. Se perdermos esse momento ideal, teremos de esperar pelo próximo. Escolher o momento certo é crucial. Muitas pessoas à minha volta veem o universo a enviar-lhes oportunidades incríveis, mas quando a oportunidade chega, “ah não, não posso, ah não, não estou pronto, ah não, ah não”. Elas não sabem que, infelizmente, oportunidades assim não aparecem todos os dias, e às vezes é preciso esperar 12 anos até que uma oportunidade semelhante surja. Portanto, se não sabemos quando a oportunidade chega, temos de estar sempre prontos: conhecimentos, saúde, mentalidade, dinheiro… READY.
Ao conhecer disciplinas antigas como a astrologia sideral ou o I Ching, temos felizmente uma pequena ajuda, pois essas disciplinas podem dar uma ideia bastante precisa do “momento ideal”. No meu caso, por exemplo, consegui calcular sozinha que 2022 era o meu momento. Assim, disse “sim” a tudo e, no final, um grande contrato caiu-me no colo porque disse “sim” a um microcontrato que normalmente nunca aceitaria. No caso do Coelho, ele soube que tinha de publicar o livro ANTES do Natal, estava em cima da hora. Mas publicar um livro assim em janeiro provavelmente não teria o mesmo impacto. Essa ideia de “aproveitar a oportunidade” e “estar lá no momento certo” foi bem explicada no Alquimista, na minha opinião. Mas quero mesmo destacá-la neste artigo e aqui também.
Se tiverem dúvidas sobre este ponto específico, não hesitem em deixar um comentário. No entanto, só consigo calcular o “momento ideal” para o JB e para mim. Não recebi o *dom* de ver para os outros.
Lição 4: Ler o I Ching. Se não o compreenderem, estejam sempre prontos para o caso de uma oportunidade surgir.
A agente literária internacional de Paulo Coelho é a Monica Antunes. Quando o Coelho a queria despedir porque ela não assinava nada em 4 anos, ela não quis dizer “desisto”. Recusou ser despedida e, na feira de livros seguinte (onde os editores compravam direitos de livros), conquistou os seus primeiros 16 contratos. Hoje, é riquíssima porque não aceitou desistir.
Paulo Coelho sempre quis traduzir os seus livros e distribuí-los internacionalmente. Quando falo com os meus amigos empreendedores, a prioridade deles também é sempre encontrar uma ideia “escalável”; por exemplo, para um restaurante, seria criar uma franquia; para um produto, seria passar pelo marketing multinível; para um site, seria a tradução em xx idiomas… a ideia é alcançar e estar presente para milhares de milhões de pessoas, e não apenas para as pessoas da sua aldeia.
Em suma, depois de ler esta biografia (link Amazon, link Fnac), pensei que esta era ainda mais interessante do que o Alquimista ahahah, porque vemos um caso concreto de realização da sua Lenda Pessoal. Há números de vendas, percentagens de comissão, estratégias de distribuição de livros, como lidar com a pirataria, negociações de negócios. É demais para um leitor comum, mas quando somos curiosos, ou empreendedores, ou futuros escritores, esse nível de detalhe é excelente!!! Misturam-se o contexto político do Brasil, a polícia secreta, fenómenos paranormais, seitas, sociedades secretas, rituais de iniciação… parece um romance de Dan Brown, mas melhor, porque é real!!
No final, decidi-me: vou adquirir a versão Standard do Alquimista. Li-o no momento certo, ou seja, quando mais precisava, e ajudou-me imenso, por isso vou comprar esta versão de colecionador. Há duas cores para escolher, opto pela versão Gold. O livro será impresso à antiga (letterpress) em papel Fedrigoni Arena Rough de 170g, com 24 páginas ilustradas. O livro é encadernado à mão e assinado pelo ilustrador Gary Gianni. A caixa e os papéis marmoreados são feitos à mão. A lombada será em buckram, algodão engrossado. O livro está limitado a 500 exemplares. Os 75 exemplares restantes serão colocados à venda dentro de alguns dias no site da editora. Todos receberão o seu exemplar no verão de 2025. Mais informações
Depois, a minha coleção estará quase completa (é o que dizem os colecionadores), falta-me UM livro muito específico que estou a procurar em sites de leilões.




